sábado, 27 de fevereiro de 2016

PANELAÇOS E PANACAÇOS

Quem não votou na Dilma e só bate panelas por essa razão. Quem se comporta como uma criança birrenta contrariada, acha que eleição é fla-flu e não aceita perder. Esses não têm ainda a educação cívica necessária à aquisição e ao exercício da cidadania . Todos os dias, torço fervorosamente para que Dilma conclua seu mandato. Não sou tão tola nem tão alienada a ponto de acreditar que o Brasil iria melhor nas mãos do Temer ou.... nem quero me lembrar das outras possibilidades. Tranquiliza-me, pelo menos em parte, notar que os afoitos pelo impedimento da presidente parecem ter arrefecido depois de se aperceberem que os pretextos alegadas eram uso e costume não apenas do PT, mas também de partidos de todo tipo e tendência. Telhados de vidro, no Brasil, se acham aos montes, sem ter que se esforçar muito. Além disso, se no dia primeiro de maio a Dilma ainda estiver na presidência, significará que o Ciro Gomes estava equivocado em seus cálculos e previsões. O que também não deixa de ser bom para o Brasil. (O Ciro chegou a afirmar que de abril ela não passaria.) Não votei na Dilma. Não votaria nela nem pra síndica do prédio onde moro. (Quem cuida dele é muito competente, por sinal. Os moradores estão bem satisfeitos e o admiram.) E já vai muito, muito longe o tempo em que eu dava um voto de confiança ao PT. Mas Dilma é a presidente do meu país, eleita – reeleita, aliás – em eleições livres. É isso que respeito e penso que quem tem juízo deveria respeitar também. Se não acredita em urna eletrônica, proteste entre as eleições, lute com todos os meios ao seu alcance para conseguir a volta do antigo sistema, ou de um sistema híbrido, ao invés de, se a apuração está concluída e o seu candidato não venceu, vir com aquela conversa de que urna eletrônica não é confiável, que houve fraude e blá... blá... blá... Porém.... Quem acha que a presidente fez promessas de campanha e não as cumpre. Que ela disse qua faria uma coisa e está fazendo outra. Que, reeleita, deu uma guinada e mudou totalmente a direção do seu governo. Que não está fazendo por merecer os votos que recebeu... Bem, quem assim pensa tem, sim, razões de sobra para estar decepcionado. A qualquer cidadão, tenha ou não votado nela, cabe o direito de se manifestar, caso entenda que a governante não procede bem. Se tiver votado nela, mais ainda. E pode fazê-lo por quais meios civilizados desejar. É claro que jogar pedra, dar tiro, quebrar, depredar não é expressar insatisfação. É praticar vandalismo, desrespeitar o patrimônio comum ou alheio, pôr em risco a integridade dos outros, faltar com a inteligência. Bater panela, demonstrar que não acredita em quem está falando, sim. É lícito, é democrático, é legítimo. Quem comprou geladeira nova no governo Lula agora está penando pra conseguir botar alguma coisa lá dentro. As construtoras estão com os estoques abarrotados. Apartamentos financiados estão sendo devolvidos. O FGTS continua sendo corrigido pela metade dos ídnices da poupança. A Caixa Econômica, que historicamente financiava de 80 a 100% do valor do imóvel, passou a financiar no máximo 50%. Apesar da inflação, a tabela do IR não mudou; a CPMF já teria voltado se dependesse só do Executivo. Você, que discorda dos panelaços, também tem o direito de se expressar. Só não devia fazer julgamentos preconceituosos. Tirar conclusões precipitadas. Dizer bobagens do tipo “os protestos vêm das varandas gourmet”, “quem bate panela é de direita”, “só em casa de rico tem panelaço”. A Zélia Cardoso de Melo também disse que depois do Plano Collor só os restaurantes de luxo estavam vazios. Ela ainda não tinha reparado que restaurantes de luxo têm funcionários: garçons, ajudantes de cozinha, faxineiros. E que esses trabalhadores, então, perderiam seus empregos. Que os fornecedores perderiam seus clientes.... que a economia, enfim, é uma teia que enreda a todos. Não trate os descontentes como idiotas, não se refira a eles como bocós. Porque, no caso, o bocó pode muito bem ser você.

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